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Camaçari baseia-se por sua riqueza histórica ligada aos povos originários, como os primeiros habitantes desse território, bem como pelo perfil socioeconômico da sua população. O Município tem uma população estimada em mais de 300.000 moradores, é a quarta cidade mais populosa da Bahia e a segunda da Região Metropolitana de Salvador.

Praças, prédios antigos, o complexo industrial, os mais de 42 km de praias e a existência de quatro rios que atravessam toda a região, o Rio Camaçari, Joanes, Jacuípe e o Rio Pojuca refletem um pouco a história da cidade.

A cidade é referência como um forte vetor econômico para o estado, abriga o maior pólo industrial da América latina e ainda hoje recebe imigrantes de várias partes do estado e do país, atraídos pelas oportunidades de emprego. A intensa urbanização que grande parte da região vem sofrendo, sobretudo a orla do município, tem fomentado uma certa abstração aos povos originários e tradicionais da região, bem como, às suas práticas e saberes. Com isso, ocorre também o afastamento desse conhecimento do nosso cotidiano, da educação formal e informal, diante do saber convencional atual, acadêmico, científico, que apesar de ser contemporâneo tem lugar e voz em alguns espaços e entendimentos, como o saber validado e absoluto, resultando não só no enfraquecimento da cultura popular tradicional, mas conduzindo a sociedade ao esquecimento de um saber que é milenar, ancestral, da natureza, do feminino, que é do povo e para o povo. Tal condição tem causado prejuízos na identidade cultural dos moradores de Camaçari.

O patrimônio cultural de um povo lhe confere coesão estrutural, pressuposto básico para que se reconheça como comunidade, este patrimônio conserva a memória do que fomos e a consciência de quem somos, revela a nossa identidade, sendo constituído pela soma dos bens culturais. Tornando-se a riqueza comum que herdamos como cidadãos, transmitida de geração em geração.

Foto: Eduardo Queiroga

A cultura do nascer mostra as diferenças e similaridades entre os vários povos, a preservação e valorização da parteira tradicional, são fundamentais para a manutenção da identidade comunitária das populações.

O parto tradicional torna a ancestralidade presente na atualidade social da comunidade, renovando-a e atualizando-a. Esta ancestralidade é fundamental para a formação da identidade cultural e social de um povo.

Existem muitas formas de conhecer a alma de um povo, sem dúvida a mais fascinante é através do partejar tradicional. Tais formas estão profundamente inseridas na cultura de suas localidades ou regiões. O parto tradicional tem a capacidade de comunicar aspectos identitários, geográficos, históricos e culturais de uma população, pois, além de fornece raízes ancestrais, insere seus habitantes em uma dinâmica na qual se percebem parte de um grupo definido. Nesse sentido, as parteiras são guardiãs dos princípios do nascer, da cultura e da identidade de toda criança recebida por elas.

O modo como uma pessoa nasce possui um significado simbólico para cada sociedade, e para cada cultura, tornando o ato do nascimento não apenas biológico, mas social e cultural, pois marca as diferenças, as semelhanças, as crenças e a classe social a que se pertence. O nascimento traz a memória ancestral, marca fortemente no imaginário de cada pessoa. Nesse entendimento a Parteira Tradicional reflete o ambiente social e cultural que está inserida. Os saberes do partejar tradicional quando preservados e repassados para as gerações vindouras, levam consigo a identidade, a tradição e a ancestralidade de toda uma população. É esta dinâmica de tempo passado e presente que configura o parto tradicional como um elemento de resistência de determinadas tradições.

A cultura tradicional da gestação e do parto, sofre alterações, em termos de acréscimos, substituições e abstrações, com o passar do tempo, visto que, as práticas do nascer são também ditadas pelo momento presente, sem, contudo se desvincular das regras culturais criadas na sociedade, no grupo social ou na família. Essa atividade é um dom mas não as isenta do trabalho diário, que é verdadeiramente de onde provém o seu sustento. Por isso a maioria das parteiras exerce atividades agrícolas, pesqueiras ou de artesanato, com exceção das que se profissionalizam no exercício de cuidar.

Pesquisar e difundir essa cultura viva impressa nas parteiras tradicionais e suas práticas se mantém como um foco de resistência cultural, memória histórica, sociocultural e identitárias, permitindo as futuras gerações conhecerem a cultura e a história que a formaram.

Preservação das tradições são exemplos vivos, não só de resgate, não só de trazer uma nova proposta de educação, como também mostrar a ciência, não só como uma ciência pura mas que justifica, legitima todo esse conhecimento que está sendo debatido. Defender esse conhecimento popular como um ato de resistência, garantindo novas gerações de aprendizes.

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